Como Sobreviver na Era do Trabalho sem Emprego

Perfeccionismo

 

Em decorrência do avanço da tecnologia, da reforma trabalhista e da crise econômica, mais de 34 milhões de pessoas já trabalham sem carteira assinada no Brasil. De acordo com números de 2017 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a quantidade de gente sem registro ultrapassou, pela primeira vez, a de quem tem careteira assinada, superando em quase 1 milhão o contingente de empregos formais.

Essa é um quadro que vem crescendo gradualmente desde 2014 e chegou a representar 37% da força de trabalho no país. Segundo os dados do IBGE, dos 2,3 milhões de postos de trabalho criados em 2017, apenas um quarto oferecia vínculo empregatício. Além disso, só no primeiro trimestre do ano, quase meio milhão de vagas formais deixaram de existir. O Brasil, com 32,9%,  já ocupa a terceira posição entre os dez países com maior número de trabalhadores sem carteira assinada, superado apenas pela Colômbia (51%) e Grécia, com 34,2%.

Por mais que a situação seja agravada pela recessão, muitos especialistas acreditam que a informalidade vai continuar, mesmo após a melhora econômica, impulsionada por outros fatores. Um deles seria o avanço da tecnologia, que possibilita a qualquer pessoa realizar as mais variadas tarefas de qualquer lugar. Outro seria a reforma trabalhista, que permite novas modalidades de contrato mais flexíveis, como o intermitente (quando o contratado só recebe quando é convocado) e o temporário, em que a pessoa atua por tempo indeterminado, sem falar da Lei de Terceirização, que liberou as empresas para contratar terceiros, inclusive para as principais atividades de seu negócio.

E, ao contrário do que muitos podem imaginar, essa não é uma realidade com que se defrontam apenas os menos escolarizados. Com os diplomas perdendo relevância, as habilidades comportamentais e mentais passaram a ter um peso igual ou até maior do que o conhecimento técnico, daí porque todo mundo se torna candidato a se virar por conta própria para sobreviver. Os dados do IBGE mostram que, nos últimos cinco anos, a proporção de desempregados com ensino superior completo aumentou quase 50%.

As consequências da informalidade

O avanço do serviço sem carteira acende um sinal vermelho sobre os indicadores econômicos do Brasil. Segundo o IBGE, a informalidade foi responsável por quase metade da perda de produtividade do país durante os anos de crise. Menos assalariados registrados significa menos consumidores, levando o comércio a se retrair e a reduzir custos, o que provoca mais desemprego. Sem alternativas, as pessoas acabam migrando para outras atividades, como motoristas de aplicativos ou vendedor autônomo, ganhando menos do que nos tempos de carteira assinada.

Nesse contexto, o Brasil caminha para se nivelar á África do Sul, um dos países recordistas em informalidade no mundo, com 80% da mão de obra se mantendo por conta própria, o que pode levar á precarização das condições de trabalho. Sem a estabilidade financeira, os informais se vêm obrigados a acumular dois ou mais serviços, ultrapassando as jornadas de trabalho estabelecidas por lei, e passam a ter mais dificuldades em organizar e pagar as contas no fim do mês.

Trabalhe 4 horas por semana 2

 

A livre escolha

Apesar das dificuldades, há muita gente que opta por esse modelo, especialmente dentre as pessoas mais jovens, que desistem de um emprego formal dentro de uma estrutura corporativa, com um chefe lhe dizendo o que tem que fazer. Ao desejo de mais flexibilidade, se soma o surgimento de aplicativos que possibilitam o compartilhamento de bens; das lojas virtuais que permitem a venda de produtos sem intermediários, e dos sites que conectam autônomos a quem busca prestadores de serviço.

A tendência é que haja cada vez mais empreendedores digitais e profissionais qualificados realizando projetos pontuais, de acordo com as necessidades do cliente. É o chamado gig economy, ou economia sob demanda, que deve se espalhar inclusive nos países mais desenvolvidos. Segundo levantamento da consultoria americana Emergent Research, o numero de gig workers nos Estados Unidos passará dos atuais 4 milhões para 7,7 milhões em 2020, chegando aos 9,2 milhões no ano seguinte.

Para quem não suporta a ideia de passar 8 horas confinado em um escritório, a notícia agrada, já que significa autonomia, liberdade,  e pode representar a independência financeira. Isso também significa que a carreira sai das mãos do empregador e tudo – rigorosamente tudo – passa a ser de responsabilidade do empregado: aonde quer chegar, dias trabalhados, valor dos serviços e planejamento de aposentadoria, um modelo, enfim, que requer disciplina, organização, determinação e criatividade.

Em primeiro lugar, é preciso entender as diferenças entre os profissionais que trabalham sem vínculo, que podem ser divididos em quatro categorias:

  • Informal: não tem registro de emprego, não participa do Sistema da Previdência Social e não recolhe impostos, embora seja parte da população economicamente ativa. É um profissional que faz o que se chama de “bicos”, com formação especializada ou não;
  • Autônomo: não é subordinado a nenhuma empresa, mas deve estar inscrito no cadastro da prefeitura e emitir o registro de pagamento de autônomo (RPA). Tem imposto retido na fonte e quem o contratar terá de recolher INSS de 20% sobre o valor pago;
  • Liberal: pode ser autônomo ou constituir uma empresa em seu nome, como pessoa jurídica. Em geral, presta serviços a várias organizações ou pessoas, sendo os exemplos mais comuns os dos médicos e advogados;
  • Freelancer: é um neologismo de origem americana e designa o profissional que pode apresentar registro de autônomo ou abrir uma empresa para emitir nota fiscal.

 

Para ajudar as pessoas que se encontram nessa situação ou para quem ainda vai passar por ela – ou por opção ou por falta de alternativas – a revista VOCÊ S/A, em sua edição de julho 2018, preparou um guia básico de sobrevivência na informalidade, que resumimos a seguir

Decisões

 

1 – Prepare-se para a carreira do futuro

Com o fim do registro em carteira, quase ninguém entrará numa empresa como estagiário para sair CEO. A carreira deixará de ser linear para se transformar num ziguezague, onde os vínculos serão formados por projetos, obrigando as pessoas a operar como freelancer.

Nesse contexto, é importante buscar a especialização, mas não ficar preso a uma indústria. Um advogado que entende de tudo de regulamentação do setor farmacêutico, por exemplo, pode ficar para trás quando a demanda de serviços jurídicos for o de energia. O profissional vai se fortalecer se tiver uma visão holística da carreira, que lhe permita atuar em diversas frentes, em vários tipos de contratos.

Diante desse novo quadro, as competências comportamentais, também chamadas de soft skills, passam a ser tão ou mais importantes do que o conhecimento técnico. É preciso aprender rápido, além de ser criativo e desenvolver inteligência emocional, saindo da chamada zona de conforto para ampliar a visão, enxergar oportunidades, identificar limites e desenvolver pontos fortes.

Para tanto, cinco competências são necessárias:

  • Networking: só será convidado a realizar projetos quem estiver inserido numa ampla rede de contatos que ajude a divulgar sua reputação;
  • Aprendizado contínuo: como não haverá RH desenhando o plano de desenvolvimento, o profissional terá de estar sempre aberto ás novidades, em busca de fontes de aprendizado e experiências que lhes possibilitem desenvolver as competências mais valorizadas no momento;
  • Criatividade: se os 200 anos passados foram de automação do trabalho físico, a revolução em curso marca a informatização do trabalho intelectual, com o pensamento padronizado sendo realizado por robots. Assim, o que vai diferenciar os indivíduos das máquinas é o raciocínio inovador;
  • Adaptabilidade: a facilidade de se adaptar rapidamente a diferentes situações e de superar reveses ajudará a enfrentar as turbulências da era da informalidade, onde a rotina muda frequentemente e não é possível planejar com precisão o que vai ocorrer.
  • Visão estratégica: será necessário encarar a carreira não mais como um funcionário mas como um microempresário. A capacidade de prever novos cenários e encontrar soluções inteligentes para atuar neles é o que vai garantir trabalho e renda.

2 – Identifique as oportunidades

Self Coaching

 

Outro segredo para ter sucesso sem ser CLT é diversificar o campo de atuação, identificando funções e setores aquecidos. Para evitar análises apressadas e distorcidas, recorra a ex-chefes ou colegas ou considerar contratar um especialista – um coach, por exemplo, pode ajudar a enxergar o seu perfil.

Definidos os caminhos, a dica dos especialistas é circular – e bastante. Seja como freelancer, consultor, empreendedor ou outonamo, é importante frequentar palestras, cursos e eventos onde se possa conhecer gente nova e fazer networking. Também vale conversar com familiares, colegas e antigos clientes para detectar chances de negócios, ou até para aprender com quem já sobrevive sem carteira assinada.

3 – Organize as finanças

Não ter um salário fixo nem os benefícios assegurados pelo registro de trabalho, como plano de saúde, vale transporte e alimentação, exige controle e uma rígida programação de despesas. Para alguns especialistas, o ideal é fazer cálculos anuais, o que possibilita ter uma visão global de quanto, em média, precisa entrar em sua conta no banco mês a mês.

Um erro comum nessa estimativa é superestimar os rendimentos. Estudos de psicologia mostram que a pessoa olha para quanto ganha no mês e fica com aquele número na cabeça, ignorando impostos e custos para realizar o trabalho na profissão (energia, internet e transportes, por exemplo).

Para definir o valores, inclua gastos com moradia, alimentação, laser, transportes e saúde, sem esquecer de reservar uma quantia para depósito do INSS. Como a instabilidade é maior, especialistas recomendam que o autônomo. reserve o equivalente a seis meses de trabalho, para não ser forçado a contrair dívidas e recorrer a empréstimos bancários se e quando a demanda cair. Além disso, é necessário prever os impostos incidentes sobre a atividade: autônomos não são isentos e precisam deixar até 30% dos seus proventos para o imposto de renda.

Para exercer um controle mais rigoroso é preciso separar as despesas profissionais das despesas pessoais, para analisar se há lucro na atividade. Se não está sobrando dinheiro, é hora de rever o orçamento e cortar os gastos que não sejam absolutamente necessários.

4 – Programe a aposentadoria

Em essência, a preparação não é tão diferente de quem trabalha em regime CLT. O teto máximo de aposentadoria do INSS é de R$ 5.645,80 e quem quiser viver com mais terá de aplicar o dinheiro para que ele renda conforme as projeções de custo de vida. No livro Como Planejar a Aposentadoria, Fábio Gallo Garcia, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor financeiro, recomenda poupar o quanto antes.

Se uma pessoa na faixa dos 40 anos quiser uma renda mensal de 7.000 reais aos 70 anos, precisará economizar 167 reais por mês. Mas se deixar para guardar dinheiro aos 60 anos, a poupança mensal subirá para 2.550 reais, ou seja, o esforço fica muito maior quando se está perto da aposentadoria.

Até mesmo onde se pretende morar na velhice fará diferença nesse planejamento. Cidades pequenas, por exemplo, têm custo de vida menor do que as capitais. De modo geral, Fábio recomenda que os autônomos montem uma carteira com poucos investimentos de risco, o que significa não colocar mais de 20% em ações, especialmente se deixar para poupar depois dos 40 ou 50 anos de idade.As três melhores alternativas mais seguras e rentáveis no longo prazo, segundo o professor da FGV, são os títulos de renda fixa, como o Tesouro Direto, além dos fundos e planos de previdência.

 

 

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